Dor que se transforma em arte: Crítica de Hamnet
Hamnet: A vida antes de Hamlet, novo longa da cineasta Chloé Zhao, estreia hoje, 15 de janeiro, nos cinemas
Em um retrato vulnerável, emocionante e belíssimo sobre luto, maternidade e o poder da arte, Chloé Zhao retorna aos cinemas com Hamnet: A vida antes de Hamlet. Baseado no livro homônimo de Maggie O’Farrell, o longa acompanha William Shakespeare e a esposa Agnes após a devastadora perda do filho Hamnet, acontecimento que inspira o autor a escrever uma das suas obras mais populares e atemporais, Hamlet.
Evidenciado pelas diversas produções que dirigiu, Zhao tem um talento único de contar histórias que emocionam os espectadores. Da esperança e resiliência demonstradas no vencedor do Oscar Nomadland, ao romantismo e fantasia de Eternos, todas as narrativas conduzidas pela cineasta, à sua própria maneira, encantam aqueles que as assistem. Hamnet não é diferente: a delicadeza e vulnerabilidade na direção do longa conectam o público à família e à misticidade que permeia a trama, e o espectador não pode evitar não sentir empatia pela perda que os afeta de maneira tão brutal.
No discurso de agradecimento pelo Globo de Ouro de Melhor filme de drama, Steven Spielberg, produtor executivo do filme, ressaltou a ideia quando disse “Eu amei o livro, mas sentia que só tinha uma cineasta no mundo capaz de contar a história de Agnes, Will e os espíritos da floresta: a excepcional Chloé Zhao”. Acompanhado da fotografia de Łukasz Żal, a direção torna este um dos longas mais belos do ano.
Jessie Buckley, protagonista de Hamnet, revelou seu talento para os dramas e tragédias shakespearianas na versão de 2021 de Romeu & Julieta que estreou ao lado de Josh O’Connor. Agora, no papel de Agnes, a esposa do dramaturgo, Buckley mostra que a pior dor que uma mãe pode sofrer é a perda de um filho. Em uma das melhores performances da carreira — e do ano — ela retrata com maestria a dor visceral e indescritível vivida pela personagem evidenciando o porque ela é um dos nomes mais fortes para o Oscar de Melhor atriz este ano.
Ao lado dela, Paul Mescal interpreta um poeta dedicado que, ao se esforçar pelo reconhecimento de sua obra, acaba se tornando, mesmo que sem querer, um pai e marido ausente. Mas como em todos os seus trabalhos, Mescal vai além das falas e transmite com olhares tudo aquilo que os personagens sentem, e a perda do filho logo se torna combustível para produzir a única coisa capaz de ajudá-lo a processar o luto: uma de suas peças.
As palavras de Shakespeare não só traduzem seus sentimentos para o palco mas ressoam com os personagens — com destaque para Agnes — e com o público, reforçando o poder da arte como uma forma bonita e poderosa de lidar com o luto e celebrar aqueles que se foram. No monólogo final de Hamlet — uma das cenas mais emocionantes do filme — Agnes enxerga no príncipe o filho que perdeu e se conforma com a despedida dos dois, enfim se permitindo seguir em frente.
O elenco infantil não fica para trás: Jacobi Lupe, que estrela o longa como Hamnet, protagoniza uma das cenas mais marcantes e fortes do longa, mostrando com perfeição a devoção do personagem com a proteção e vida da irmã, características que ele herdou da mãe. A despedida da criança, desnorteada com a falta dos pais e seu fim tão precoce, é feita com tamanha delicadeza que é impossível não se emocionar com o esplendor da obra, um filme que perdura no coração dos espectadores tal qual as palavras de Shakespeare.





Que crítica sensacional!!! Belíssimo trabalho!